A polêmica de 1971 que ameaçou retirar os Profetas de Congonhas

 


Em 1971, uma proposta de retirar os Profetas de Congonhas, esculpidos por Aleijadinho, provocou forte reação no meio cultural brasileiro.

A sugestão partiu de Demerval Pimenta, então presidente do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Ele defendia a transferência das esculturas de pedra-sabão para um museu do Aleijadinho, ainda em projeto, como forma de protegê-las do desgaste e de atos de vandalismo. A proposta, no entanto, encontrou oposição imediata do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e do Conselho Federal de Cultura.

A controvérsia chegou ao Conselho Federal de Cultura em agosto daquele ano. Em sessão realizada no dia 6, o conselheiro Afonso Arinos de Melo Franco fez um pronunciamento alertando para os riscos enfrentados pelas esculturas em Congonhas. Segundo a ata da reunião, o objetivo era chamar atenção para as “mutilações que vêm sendo praticadas naquela obra” e pressionar por medidas urgentes de proteção.

Afonso Arinos fez questão de afastar a ideia de remoção. Para ele, não se tratava de criar um museu: “o museu do Aleijadinho e da arte barroca é todo o Estado de Minas Gerais”. As esculturas, sustentava, só fazem sentido integradas ao conjunto arquitetônico e urbano do santuário.

O diretor do SPHAN, Renato Soeiro, reforçou essa posição. Ele afirmou que o órgão não era favorável à retirada das estátuas e lembrou que estudos técnicos indicavam que a pedra-sabão se conserva melhor ao ar livre. O problema central, segundo Soeiro, era a falta de vigilância permanente no local.

Reportagem publicada em O Estado de São Paulo, em 17 de agosto de 1971, registrou que a oposição à retirada se baseava em laudo de um perito do Instituto Nacional de Tecnologia, segundo o qual “não é a exposição ao tempo, mas sim o contato humano, a causa do desgaste e das avarias nas esculturas”.

O jornal recuperou ainda um parecer clássico do especialista Orosco, publicado em 1945, que afirmava não haver risco para a sobrevivência das obras ao ar livre. Em uma comparação direta, Orosco observava que “uma bola chutada por uma criança ou uma pedrada prejudica mais uma estátua de pedra-sabão […] do que sua exposição ao ar por 200 anos”.

Para os conselheiros federais, retirar os Profetas significaria romper a unidade histórica do santuário. Renato Soeiro resumiu esse entendimento ao declarar ser “um pecado retirar as estátuas originais, que não estão isoladas, mas fazem parte do conjunto arquitetônico e urbanístico da igreja”.

A solução defendida foi objetiva: proteção imediata no próprio local, com vigilância permanente e controle do acesso do público. Ao final do debate, prevaleceu essa visão. As esculturas permaneceram em Congonhas.

O episódio de 1971 entrou para a história como um marco na discussão sobre preservação do patrimônio, consolidando a ideia de que conservar não é apenas proteger a obra, mas manter seu sentido histórico e seu vínculo com o lugar para o qual foi criada.

 

Paulo Henrique de Lima Pereira

Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

 

FONTES CONSULTADAS:

Boletim do Conselho Federal de Cultura, julho a setembro de 1971, ano 1, nº 3, p. 153-157.

Boletim do Conselho Federal de Cultura, julho a setembro de 1971, ano 1, nº 3, p. 191-192.

O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1971.

 

 


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